PESCARIA DA TRAIRAGEM

Chegamos lá fomos arrancar minhocas debaixo de uma mangueira. Minhocas bonitas todas reboculosas, cheias de charme, um convite para uma boa pesca. Enchemos uma lata das melhores e maiores petiscos de peixe. Caminhamos em direção ao açude pelo campo cheio de bois e vacas. A princípio tivemos medo dos bichos soltos ao nosso redor, mas fomos no peito e na raça prontos para uma boa corrida em direção a cerca mais próxima.
Nonato não bebe água que passarinho não bebe. Eu, por outro lado, levei uma caixinha de gelada porque ninguém é de ferro, principalmente para amenizar as picadas de mutucas e carapanãs na beira do açude. Botamos as minhocas n`água e vamos esperar alguém da água beliscar. Nada, nada. Nós dois iguais bocós à espera de um peixe com fome. A tarde se aproximava e nada de peixe.
Meu amigo como bom cunversador puxou uma “lera”, um papo até legal. Ele disse cumpadi “vamu falar mal da vida dos otros”. Fiquei mei abestaiado por uns momentos, mas como os pexes tavam longe da nossa isca aceitei a proposta. Joguei o anzol na água “duaçude” e Nonato vociferou: tu parece qui num sabe pescá! De repente ele pegou uma isca e rebolou longe, no mei do açude. Foi puxando devagarim quando sentiu a fisgada e alarmou “é dos grandes cumpadi”. Quando puxou era uma piaba fraquinha, fraquinha. Mas foi uma festa.
Diante da piaba Nonato sem eira nem beira disse: isso parece alguém lá do jornal. Ri a bessa e falei homi peloamordeDeus vamos pescar! Que nada, Nonato queria mesmo era falar dos plobemas da vida dos outros. A pescaria começou a tomar outro rumo. Ele deu a idéia de começar a falagem pelo o alfabeto. Explico: na letra “A” fomos lembrando os amigos e pau. A criatura em questão tava no sal, no cacete, santo não era de jeito nenhum.
Marrapaiz foi só falar em traíra que tudo mudou. Meu anzol deu uma beliscada danada que pensei ser um tubarão. Dei a mussica e arrastei a bicha pro barranco. Nonato que não tem nada de besta, falou em nome de outro colega e outra traíra foi fisgada. Daí em diante a trairagem foi grande, falando os nomes e as traíras saindo da água. Pra encurtar a conversa em menos de uma hora pegamos mais de 20 desses peixes que o povo fala mal, e uma cinco piabas.
Meu cumpadi feliz igual pinto em beira de cerca disse que tava na hora da gente ir embora, o dia tava acabando e a viagem de volta era um tanto grande, além deste pescador ter ingerido uma caixinha de geladas. A pescaria, sem dúvida, proveitosa até demais. Arrumamos o quiba, sem as latas secas, e preparamos a volta para casa. Eu dirigindo e, ele, dizendo “vamos dividir os peixes”, que para mim aquela tarde não tinha preço.
Já perto de casa falei: “cumpadi a pescaria foi porreta mas fico com as piabas e tu com as traíras porque não gosto desta misturança com esse tipo de ser vivo, seja da terra ou da água. Nonato arregalou os olhos e começou a separar o pescado, quando lhe falei: “meu amigo peixe é peixe, traíra é traíra e sempre será traíra. Agora temos amigos que também são traíras e, quando se juntam, vira uma grande trairagem.
Pitter Lucena é jornalista e mestrando em Comunicação no MERCOSUL, em Brasília.