COLETIVO BRASIL
Peguei o primeiro que apareceu, já lotado, para não ficar sofrendo ao sol das cinco da tarde no ponto de ônibus do Senado Federal. Queria chegar em casa e, na ansiedade, entrei e pensei minha casa me espera. Que nada, o maldito começou a rodar por caminhos diferentes do meu itinerário, parando aqui, ali, acolá e tome eu em pé com meus problemas de coluna. A idade faz isso com a gente, mais cedo ou mais tarde ela bate à sua porta e já era. Sacoleja de um lado, de outro, muita gente vira sardinha enlatada, mas o caminho continua. Na primeira metade do trajeto sempre entrando gente e tome a se avolumar no rabo do coletivo onde estava este abestado.
Fiquei em pé próximo à porta de saída. De um lado uma senhora ouvindo música no celular, do outro uma mulher baixinha, menor do que eu, cara de não boas amizades que pelo semblante dizia tudo sobre o sofrimento de estar ali, naquele imprensado, não reclamava, não dizia nada. Quando você está nessa situação, a primeira coisa que deve fazer é não tirar o pé do chão, se tirar já era, o lugar que era seu fora ocupado por alguém próximo de você e bau bau cachimbo de pau. Virou Saci Pererê.
Continuo segurando a barra. Na minha frente, sentada, uma mulher que se fazia dormir para não oferecer a cadeira para uma criança ou uma pessoa idosa. Tava na dela. Tive a infeliz idéia de mastigar um chiclete, pensando em distração. Que nada. Depois de 50 minutos a borracha na boca e as dores na coluna eram infernais. Que fazer? Não há nada que seja proveitoso nesse momento. Para aqui, desce ali e o sofrimento aumentando.
Mas é nesse inferno passageiro que vemos um mundo diferente. No para e desce e para e sobre um Brasil se revela diante de si. São cearenses, acreanos, maranhenses, piauienses, de todas as raças e credos ocupando um mesmo lugar. Que coisa linda observar as conversas, os sotaques, os olhares, as delicadezas, as rudezas, roupas, sapatos, cheiros e cores. É num coletivo lotado, com gente se esfregando nas suas costas, que nota-se um mundo novo e velho ao mesmo tempo. Velho para as pessoas que vivem isso todos os dias, novo para quem entra na brasilização nossa de cada dia.
Nesse vai e vem da freada do ônibus que se ver a beleza das pessoas trabalhadoras, dos sonhos de cada uma delas, da pureza de pensamento que ao chegar em casa busca sentir a alegria dos filhos, da família e de ter vivido mais um dia. Na cidade grande o maior prêmio é retornar ao lar são e salvo na certeza de um amanhã melhor. Por essas razões acredito que cada nascer do sol o brasileiro é mais brasileiro porque não desiste nunca.
Depois de mais de uma hora, dores insuportáveis, mas imaginando um Brasil mais bonito desço no meu destino e ando mais um quilômetro para chegar em casa, antes, porém, paro num boteco para uma boa cachaça, porque ninguém é de ferro.

Quando nos defrontamos com diversos desafios do cotidiano, por vezes nos surpreendemos em estado de preocupação.
No ESTADO DE S.PAULO
