PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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domingo, junho 03, 2012

MANGA COM LEITE

A memória da gente é uma coisa muito engraçada. Tem situações vividas que achamos que esquecemos mas um dia, seja lá que dia for, elas voltam como num passe de mágica. Algumas para nos alegrar, outras para nos fazer rir de nós mesmo. Num dia desses me veio à lembrança de uma presepada que aconteceu comigo quando tinha uns oito ou nove anos de idade. Por nunca ter contado essa história para ninguém, acredito que por isso essas recordações ficaram guardadas, muito bem guardadas na minha cachola.

Não sei por que cargas d`água me lembrei da mistura de manga com leite, uma composição que, segundo meus pais, era morte certa. Isso era exigido por eles para nunca cometer tal desatino. Mas não foi isso o que aconteceu. Sem querer é claro, num dia de má sorte e total esquecimento das ordens severas de nunca fazer tamanha misturança mortal. Foi um erro de criança, mas, com efeito, depois da merda feita, tudo podia acontecer. Naquele fatídico dia não cresci, parei no tempo, vi minha vida escorrendo pelos meus dedos.

Logo cedo sai de casa para a escola como fazia de segunda a sexta. Andava mais de três quilômetros para chegar à casa do saber. Um dia normal até então. Na hora da merenda, muitas vezes ia para a aula por causa dela (a merenda), a cozinheira me ofereceu um pouco de leite que havia sobrado. Não contei pipoca e de solapão peguei o caneco com o precioso liquido branco e glut, glut, glut. Estava satisfeito. Além da merenda de jabá com arroz e amendoim ainda um leitinho para minha felicidade.

Terminada a aula todo mundo para casa. Fui eu pululando de alegria. Ao chegar em meu doce casebre de madeira corri em linha reta para os pés de mangas, hábito que fazia quase todos os dias. De início derrubei logo uma “diveiz”, estágio entre a manga verde e madura. No pé da mangueira havia sal escondido na própria árvore como se ela fosse minha cúmplice. Pense numa fruta deliciosa e, eu, devorando-a sem pecado e sem juízo.

Mas, como tudo que é bom duro pouco, começou o meu tormento existencial. Lembrei do leite da escola branquinho e gostoso descendo goela abaixo e, naquele exato momento, da manga “divez” que havia entrado também para o mesmo destino. De imediato um calafrio chegou não sei de onde, descendo pela a espinhela até os dedos dos pés e não sabia direito o que fazer. De uma coisa eu tinha certeza: a morte me olhava naquele instante com um sorriso no canto da boca.

A vontade momentânea foi de vomitar a manga, até então saborosa, mas quem disse que ela saia com a sofreguidão e força de meus pequenos dedos. O desespero foi aumentando, aumentando e começava a suar frio. Era uma mistura doida em meu corpo de quente e frio ao mesmo tempo. Não conseguia pensar direito no que fazer para desfazer o problema que havia se instalado dentro de mim. Vou morrer, vou morrer, pensava segundo a segundo.

Ainda debaixo do pé de manga eu não tinha nenhuma vontade de ir para casa. Meu aparente estado físico acabaria revelando que havia feito algo grave e minha mãe, com certeza, iria saber e contar para o meu pai. Ai sim seria outra morte anunciada porque havia desobedecido as ordens dele. Que loucura meu Deus e o que fazer agora? Se meu pai soubesse me daria uma surra daquelas e, como eu já estava com o pé na cova, achei melhor suspender a peia que levaria no lombo. Duas coisas ruins ao mesmo tempo era demais para mim: Apanhar e depois morrer. Não isso não. Vou morrer sem surra de cinturão. Pensei.

Voltei para casa cabisbaixo, arrasado, mais prá baixo do que apartamento de minhoca. Minha mãe percebeu mas neguei qualquer coisa de ruim comigo. Tirei a farda da escola e voltei para o mato. Fiquei lá matutando porque a minha pobre e inocente vida iria ter fim antes dos 10 anos de idade. Penso prá cá, penso prá lá e tive outra idéia: e se soltar por baixo essa mistura insana? Daria certo? Não morreria?

Corri então para o pau-da-gata, cagador ou, melhor dizendo, sanitário ao ar livre para fazer força e expulsar a minha criação de Rosemeire. Dentro de mim fervilhava o embrião morto da morte que a mãe viria buscá-lo antes do nascer do sol. Solitário com a foice rondando minha cabeça, força não faltava para eliminar o pecado cometido nas últimas três horas de vida. Nada, nada, nada. Me contaram, certa vez, que se colocasse uma folha verde na cabeça tudo descia com facilidade. Ajustei o pensamento positivo e sai catando folhas: coloquei mais de dez, parecia um bicho folharal e nescasdepitibiriba. Nem por cima nem por baixo saia alguma coisa que alimentasse alguma esperança de continuar nesse mundo de meu Deus.

Não chorava uma lágrima porque homem não chora, diziam os mais velhos, viva e morra com honra, esse era o lema. A peia do meu pai, pensava eu, talvez fosse pior do que a morte e, como já estava sentenciado, o fim era eminente, não havia escapatória. Como estava há tempo muito no mato, ouvir o chamado de mamãe querendo saber o que estava acontecendo. Sai do refúgio mortuário, assim tipo amarelo empombado, com as pernas bambas e o suor descendo pelo rosto de tanto fazer força para mandar prá fora a tirania do meu destino.

Ao tocar em meu corpo mamãe gritou: menino você está com febre alta e vamos já para debaixo do cobertor. Minha loucura, sozinho, provocou febre e vertigens passageiras que não poderia contar para ela o meu sofrimento. Lá pelas seis da tarde, suando mais do que tampa de chaleira, meu pai chegou e perguntou o que acontecia comigo. Ela explicou e tudo ficou bem, graças a Deus, era apenas febre. Mas naquele catre eu via minha vida saindo de mim aos pouquinhos, isso porque depois de tanta força estava mais fraco do que caldo de piaba.

Quando a noite chegou piorou a chance de viver. Não jantei nada e fui para minha rede na certeza que daria meus últimos suspiros. Atordoado, confuso e fraco, deitei-me na rede e pedir que a única lamparina da casa me iluminasse naqueles instantes finais. Minha mãe achou tudo isso estranho mas atendeu meu pedido. Fiquei a olhar o telhado de cavaco da velha casa, observei a janela aberta e senti uma leve brisa aterrissando sobre o meu ser moribundo. Pensei que era chegada a hora. Que nada, me refrescou a lucidez naquele momento de pura insensatez.

Papai e mamãe dormiram e, eu, só. Mas outra idéia me veio à cabeça: se não dormisse, se ficasse acordado até o dia amanhecer? Escaparia das mãos da dona morte? Pensei nessa possibilidade e me apeguei a todos os santos, fiz promessas que não lembro, mas garantir a mim mesmo de que não dormiria naquela noite para pagar o meu pecado de ter comido manga com leite. De madrugada meu pai foi ver comigo e disse que eu estava ficando doido, abirobado. Deixa ele, pensei comigo mesmo. Se ele soubesse...

Nessa incansável luta pela vida que havia se travado dentro de mim, adormeci, ou melhor, morri de sono e cansaço.

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