SOPA DE LETRAS

Quero, agora, escorar meu eu num muro qualquer e ver o tempo passar, lentamente, sem pressa, ver alegorias descerem do arco-íris em preto e branco. Em pequenos devaneios em penumbra, procuro algo que me chame a atenção além dos pensamentos febris sobre tantas teorias. Nada me agrada, apenas observo centelhas iluminadas passarem ao largo da minha míope visão. Passam rápidas sem nenhuma informação de lucidez, quem sabe ainda por minha reclusão de entendimento. Não importa. Estou hibernando para o sol da vida.
Assim estou, enclausurado dentro de mim mesmo sem permissão de olhar a janela do ontem, apenas espiar pequenas fendas do hoje, sem medo do clarão do amanhã. Quero isso por questões ainda não decifradas pelo meu subconsciente para o bem estar da alma, que diferente de milhões de seres humanos, anda leve e solta. É bom saber que os loucos, no extremo de suas loucuras, se acham lúcidos e serenos. Como seria difícil se a loucura não existisse, a vida na teria graça e a humanidade não teria conceitos do certo e do errado.
Nessa preguiça mental as horas passam lentamente como nuvens em dias ensolarados. Outro dia fui abastecer o carro o frentista disse que apertasse com força as teclas da maquininha do cartão de crédito. Puta que pariu. Falei para ele que não gostaria de fazer nenhum esforço, estava em fase de contenção de energia. Num processo de construção e desconstrução de mim mesmo e, assim, como poderia pensar em números e teclas, às 10 horas da madrugada? Não teve jeito, joguei fora milhões de neurônios na árdua arte de raciocinar para lembrar a porra da senha. Que merda.
Para fazer este texto outro desconforto generalizado. Primeiro para encontrar as letras, depois colocá-las em ordem e, por último, colocar um pensamento em construção, coisa que literalmente, estava em decomposição mental. Mas como não tem jeito para se livrar do ofício de escrever, situação que alimenta minha alma, eis que surge essa sopa de letras que me tirou do jejum de duas semanas. Agora, se me permitem, vou voltar para o fundo da rede que me espera ao meu lado e, depois, outro esforço para tomar uma cachacinha enquanto o tempo passa. Não tenho pressa vou bem devagarzinho para não cansar. Aliás, cansei só em pensar em ficar cansado.