PITTER LUCENA

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quinta-feira, dezembro 25, 2008

OXALÁ! O MUNDO BRILHE AMANHÃ!

Chagas Freitas

A cada instante que assistimos às autoridades brasileiras falarem na TV a respeito da crise econômica que assola o mundo, que faz todas as grandes corporações tremerem nas bases, temos a impressão de que vivemos em outro mundo, talvez em outro planeta, já que elas asseguram que o Brasil está imune ao “tsunami” econômico que devassa impérios financeiros e corporações de tradição secular.

Tudo isso merece profunda reflexão, equilíbrio e sensatez. Aqueles que estão antenados além fronteiras sabem que o buraco é bem mais embaixo, e que o Brasil, apesar de sua aparente robustez econômica, não trafega em céus de brigadeiro.

Apenas alguns exemplos que corroboram esse raciocínio.

No Brasil:

- A Vale do Rio Doce, um dos gigantes do minério mundial, anunciou o fechamento de várias usinas no Estado de Minas Gerais e a conseqüente demissão de mais de três mil empregados;

- Mais de 40 mil brasileiras e brasileiros perderam seus empregos apenas no mês de novembro;

- As compras de Natal serão sobretudo de artigos baratos. Apenas para satisfazer o espírito natalino do povo brasileiro;

- Apesar de o barril de petróleo ter caído mais de 100 dólares ultimamente, o preço da gasolina não reflete essa baixa nas bombas. Muito pelo contrário! Isso em total dissonância com o que acontece no mundo inteiro. Não tem explicação que faça cristão acreditar. Mas é assim que o governo opera e o povo consente. Mamma mia!

As grandes montadoras, segundo entrevista publicada no “Le Monde”, do brasileiro Carlos Grossn, Presidente do Consórcio Renault-Nissan, se não houver injeção pesada de aporte financeiro dos governos, todas elas desmoronarão em efeito cascata, uma após a outra;

E tudo leva a crer que o nosso conterrâneo sabe onde a coruja dorme: esta semana a Toyota anunciou um prejuízo de 1,7 bilhão de dólares, o primeiro em sua história e ao mesmo tempo o governo norte-americano formalizou aporte de vários bilhões de dólares em socorro à sua indústria automobilística;

O tradicional banco Goldman Sachs faliu deixando um rombo de mais de 50 bilhões de dólares, passando a perna em muitos investidores, incluindo até os israelenses, sempre zelosos com seus ativos. De lambuja, até uns brazucas endinheirados dançaram;

As vendas natalinas na terra do Tio Sam nunca estiveram tão em baixa nos últimos 26 anos. As ofertas são do tipo: compre um e leve dois, mas nem isso serviu para quebrar o gelo e o temor dos compradores. Parecendo até haver uma sintonia entre o inverno inclemente e o ânimo dos eventuais fregueses;


De cada 10 norte-americanos, pelo menos dois já perderam emprego. Não é sem maiores preocupações que o presidente eleito Barak Obama promete criar mais de dois milhões de empregos nos próximos meses. Caso consiga, ainda assim, a taxa de desemprego nos Estados Unidos continuará muito alta;

No Reino Unido, mais de 2.000 escritórios tiveram que fechar as portas;

Nos últimos dias, 10 grandes bancos tiveram prejuízo de mais de nove bilhões de dólares;

Hoje, o Japão apresentou o maior orçamento de sua história, num montante de mais de um trilhão de euros. Tudo isso são reflexos de uma crise que não sabemos onde nos conduzirá.

Ao término de minha estada no Líbano, fiz escala em Paris e já no avião uma matéria de primeira página no “Le Monde” me chamou atenção. O título era sugestivo: “Crise financeira abala a indústria de restaurantes na França”. Como os franceses são conhecidos pelo seu requinte à mesa, li a matéria com cuidado e logo percebi a gravidade da situação.

O presidente da federação de restaurantes esclarecia que a crise econômica afetou sensivelmente o setor. Que a freqüência havia caído em torno de 25%, no segundo semestre deste ano. Que o número de pessoas que abdicaram do almoço estaria na faixa de 12% e igual percentual dividia a refeição com um colega, e que mais de 10% estavam levando marmita para o trabalho.

O certo é que os reflexos da crise financeira estão a olho nu, observa-se por toda parte. Os metrôs estão abarrotados de artistas caça-níqueis. O que já fora uma tradição poética na cultura francesa, tornou-se, atualmente, um imperioso meio de sobrevivência para muitos. Dentre tantos os que vi, chamou-me a atenção um grupo de mais de 10 músicos de ucranianos que passavam horas tentando algum trocado naquela temperatura de 2 graus negativos.

Portanto, quando as autoridades brasileiras alardeiam que o Brasil está imune à crise, devemos ter o cuidado e o zelo necessário que a grave situação exige. Elas estão tentando tampar o sol com peneira. Essas nossas reservas cambiais são apenas um acalento diante da crise que teremos de enfrentar. Todo cuidado é pouco!

Desejo a todos um Feliz Natal e que o Ano de 2009 nos apresente um outro cenário do que o das nuvens negras que sufocam Paris e as grandes economias atualmente. Oxalá!
Chagas Freitas é economista, pós-graduado em Administração Financeira e poliglota.

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