PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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quarta-feira, dezembro 17, 2008

BACURAU E O ELEITOR PAI DÉGUA

Li dias desses que o cidadão mais que acreano do que nunca, Francisco Augusto Vieira Nunes, o Bacurau, recebeu o título de cidadão acreano. Mesmo sendo amazonense, Bacurau, foi mais acreano do que muitos dos vivem no Acre fazendo estripulias com a coisa pública. Era um cabra honesto, de respeito e valores pessoais que poucos chegam aos pés dele. Dedicou maior parte de sua vida à causas que a maioria dos acreanos nunca quiseram saber. Viveu uma vida clamando por justiça. E, por justiça, morreu afirmando que foi um homem feliz.

Conheci Bacurau nas eleições de 1996. Ele era candidato a deputado estadual. Viajamos por quase o Acre inteiro promovendo reuniões e comícios. Naquela mesma eleição estavam Marina Silva, hoje senadora da República e o filósofo e ex-deputado federal Marcos Afonso. Com seu jeito simples, humanitário e atencioso com as pessoas, Bacurau tinha sua forma peculiar de transmitir seu recado diante da platéia.

Uma vez saímos de um restaurante em Tarauacá, por volta da meia-noite, caminhamos pela rua distraidamente rumo ao hotel conversando sobre a política do Brasil. Ele me dizia que somente um presidente operário poderia mudar a cara do país e a vida da classe trabalhadora. Foi uma conversa um tanto longa. Ele caminhava devagar por causa de suas dificuldades e, eu, sem pressa para chegar a lugar algum.

Nos comícios, Bacurau chamava a atenção do público. Com voz firme e palavras escolhidas Bacurau finalizava seu discurso da seguinte forma: “meus amigos, existem três tipos de eleitores nesse Brasil. O primeiro é o eleitor mama na égua, aquele que vive sempre agarrado no poder; o segundo é o eleitor filho duma égua, aquele que sabe que a situação é complicada mas vota por dinheiro e, o terceiro, é o eleitor pai dégua, aquele que vota nas propostas do PT para mudar o Acre e o Brasil”. Bacurau era ovacionado pelo público porque sabia lidar com a platéia, falava a voz do povo.

Francisco Augusto Vieira Nunes, o Bacurau, nasceu em Manicoré, no Estado do Amazonas, em 1939. Bacurau contraiu hanseníase aos cinco anos de idade, na década de 40. Desde a infância conheceu de perto o preconceito e o isolamento do convívio social. Na adolescência passou a morar no hospital colônia de Porto Velho e lá ganhou o apelido de Bacurau, nome de um pássaro da região.

No início da década de 60 foi internado na colônia Souza Araújo, em Rio Branco, no Acre. Por seu envolvimento efetivo nas questões da comunidade, tornou-se um líder comunitário respeitado. Até a sua morte, em 1997, participou ativamente de várias lutas sociais, foi reconhecido e premiado internacionalmente pelas iniciativas e conquistas. Bacurau foi um dos fundadores do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase – Morhan –, em 1981.

A trajetória humanista e corajosa de Bacurau serve tanto de modelo àqueles que deixam o próprio destino reger suas vidas, como de reforço do espírito de luta daqueles que se empenham em promover transformações sociais. É preciso lembrar sempre de pessoas que não se entregaram diante das dificuldades e das omissões alheias.

Solidariedade
O casal Bacurau e Terezinha não teve filhos biológicos, entretanto, ele criou os cinco filhos dela, de outro casamento, como se fossem seus. Além destes, criou várias outras crianças como filhos, durante toda a vida. Teve época em que abrigou nove pessoas, mas jamais faltou um prato de comida. A casa ficava aberta para qualquer um que necessitasse, fosse amigo, estivesse de passagem ou fosse visitar.

Compositor e escritor
Em 1972, compôs a música “Lapinha na Mata”. Esta música virou um cântico conhecido na Igreja. Tempos depois a editora Irmãs Paulinas registrou em vinil. Bacurau teve várias músicas que são cantadas em celebrações e missas católicas.

O primeiro livro escrito por Bacurau chama “À Margem da Vida: num leprosário do Acre”. A publicação foi patrocinada pela Igreja Católica por expressar os ideais da Teologia da Libertação. Dom Moacyr e o padre Clodovis Boff foram os grandes incentivadores da obra que foi lançada em 1978.

No mesmo ano, Bacurau é convidado pelo Ministério da Educação para participar da coleção “Prosadores do Mobral”. A série foi criada para divulgar o Mobral e os livros eram escritos por antigos alunos do programa. Com isso, foi publicado “Chico Boi”, seu segundo livro, no início de 1979.

Os responsáveis pelo Mobral na região Norte do Brasil decidiram lançar o livro em Manicoré. Em sua cidade natal, Bacurau e a equipe do Mobral foram recebidos com honras e comício. Este evento o marcou porque jamais esqueceu a ironia do poder público e a hipocrisia de muitas pessoas que o receberam. A mesma prefeitura que decretou sua prisão domiciliar na sua infância, agora o homenageava, e algumas pessoas que apertaram sua mão com sorrisos no lançamento de seu livro, ajudaram na sua expulsão da cidade quando ainda era uma criança.

Bacurau gostava de compor músicas que exprimissem a alma e o espírito popular. Sua esposa conta que Bacurau preferia escrever deitado de bruços na cama do casal. Passava noites e noites acordado, lendo, escrevendo e musicando suas poesias. Outras vezes fazia música no banho ou sentado em sua cadeira predileta.

Em janeiro de 1988, a sua composição “João Seringueiro”, venceu o Festival Acreano de Musica Popular – FAMP. Foi uma realização para ele que nunca esqueceu a platéia aplaudindo entusiasmadamente a sua música.

As palavras de Bacurau precisam ser amplificadas e multiplicadas. O sonho de Bacurau precisa ser alimentado, pois o seu sonho é o sonho de cada um que acredita em um futuro melhor.

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1 Comments:

Blogger LCelso said...

Companheiro Pitter, parabéns pelo "10, Nota 10" e também um muito especial pelo que Você escreveu sobre o Bacurau. Ele também mantinha um convênio com o Senac, o qual tive a honra de assinar, para efeito de treinamento dos associados do Mohan na utilização de máquinas de costuras profissionais, produção e colocação no mercado de roupas populares.
Abraços,
Luis Celso

3:14 PM  

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