PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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segunda-feira, novembro 17, 2008

CARTAS DO ORIENTE (2)

Chagas Freitas

O Líbano é realmente um país singular. Deixaremos Beirute para iniciar um giro pelo país, visitar suas praias, suas montanhas, seus sítios arqueológicos e suas vilas. O interessante é que da capital, pode-se chegar a qualquer uma de suas fronteiras em menos de três horas de carro, em estradas, muitas delas, exigindo toda atenção e perícia do motorista, mas, que, comumente, proporcionam uma bela vista entre as montanhas e o azul do Mediterrâneo, que a nossa diminuta visão chega a confundir o mar e o céu.

No meu primeiro fim de semana, o meu chefe, gentilmente, convidou-me para visitar Tyre (Sour, em árabe), que se situa a 83 km de distância ao sul de Beirute. Apesar de ser época do Ramadã, período em que os muçulmanos jejuam durante o dia, a praia em Tyre tinha bastante gente, em trajes ocidentais e alguns deles até degustavam umas geladinhas, já que ninguém é de ferro. A areia branca, fina e a água temperada do Mediterrâneo eram a redenção para quem acabara de chegar de Brasília. De quebra, surgiram até umas ciganas oferecendo para ler a mão.

Lamentavelmente, durante a guerra de 2006, os israelenses bombardearam todas as pontes do país. Muitas delas se encontram ainda em reconstrução, o que compromete a trafegabilidade e a segurança nas estradas.

Tyre é a quarta maior cidade libanesa. Sua história é rica. Foi um importante centro comercial fenício. Foi lá que surgiu a cor púrpura, - de valor excessivo -, a coqueluche dos nobres abastados e a preferida de Cleópatra.Como quase tudo aqui é história, no século VI a.C, Nabucodonosor, o rei da Babilônia, viveu na cidade durante 13 anos. Mais tarde, Alexandre, o Grande, tentou invadi-la, lutou durante sete meses e foi derrotado. Os cristãos chegaram a Tyre e a cidade é mencionada diversas vezes no Novo Testamento.

Suas fortalezas e fortificações são o testemunho de um passado de glória, de poder político e financeiro. Todos os impérios quiseram conquistá-la. Os Cruzados travaram muitas batalhas e só conseguiram dominá-la em 1124, mas os Mamelucos os expulsaram em 1291. Os Otomanos a dominaram no século XVI. Em 1980 a UNESCO deu-lhe o título de Patrimônio Histórico da Humanidade.

Todos os povos deixaram o testemunho de sua passagem em Tyre, mas dentre eles, o império romano foi o mais significativo, com suas elegantes colunas de mármore à beira mar, com que dando boas vindas e ao mesmo tempo, mostrando imponência e poder. Daquela época ainda restam o magnífico Arco do Triunfo, resquícios das famosas termas romanas e do hipódromo. Simplesmente, um lugar inesquecível.

No final da tarde continuamos a viagem mais para ao sul, até a fronteira com Israel, cheia de controle, cerca de arame farpado, carros militares fazendo inspeção e, de vez em quando, ouvia-se o barulho de aviões que a tudo registram. Apesar de ser quase o por do sol, a paisagem verde da agricultura (sobretudo, plantação de banana) e o azul anil do Mediterrâneo. Esse cenário levou-me de volta ao passado, aos meus tempos de ex-RDA, do fatídico Muro de Berlim, onde vivi sete anos.

Deixando a fronteira Líbano-Israel depara-se com a beleza das montanhas, de muitas vilas, dos castelos e vinhedos, já que a uva é cultivada em todo lugar; em cercas, sobre o teto das casas, em pomares, uma verdadeira maravilha.

Na minha segunda viagem ao sul, entre Tyre e a fronteira israelense, visitei Qana, a Canaã bíblica, onde Jesus fez o milagre da transformação. Lá resiste aos séculos a gruta, onde o Deus filho esteve com alguns de seus apóstolos e um pouco mais afastado, ainda no mesmo vilarejo, o local de onde foi recolhido o vinho.

É um lugar extremamente rochoso, onde apenas uma modesta bilheteria existe para cobrar ingresso dos poucos que lá aparecem, já que fica em uma zona de difícil acesso e controlada pelo Hezbollah – que em árabe significa partido de Deus.

Não poderia deixar de mencionar Sidon (Saída, em árabe), conforme a Bíblia fundada por um neto de Noé, a 48 km de Beirute, e o lugar preferido de Jesus, quando descia das montanhas para descansar no litoral e também fugir da perseguição dos saduceus e fariseus.

Foi em Sidon que ele curou a filha de uma cananéia (Mateus 15,21/Marcos 7/24). Por Sidon, também passaram Maria, Santo Elias e alguns apóstolos como Paulo. Por isso é considerada uma Terra Santa.

Existe uma capela encravada numa gruta, onde Maria ficava aguardando Jesus de seus encontros com pescadores e apóstolos. Nesse local são rezadas missas diariamente e as mães de todas as nacionalidades fazem preces por seus filhos. É, realmente, um lugar peculiar, de muita paz e espiritualidade.

A origem de Sidon data de 4.000 anos a.C. Foi ocupada por gregos, romanos, árabes, cruzados e mamelucos. 14 séculos a.C., já possuía um florescente comércio e próspera economia. Portanto uma das mais proeminentes dentre as cidades fenícias.

Contra a invasão persa, os próprios habitantes de Sidon, colocaram fogo na cidade, matando mais de 40 mil pessoas. Mas foi durante o império romano que Sidon alcançou o apogeu econômico e de desenvolvimento.

Sidon é, também, famosa pela fabricação de vidro transparente, desde o primeiro século de nossa era, de sua faculdade de direito. Foi capital do Líbano após o terremoto de 551, que destruiu Beirute. Da época dos Cruzados restam as ruínas do Castelo do Mar, de 1228. Em 1840 essas imponentes ruínas foram quase que totalmente destruídas pelo bombardeio da frota austro-britânica. Hoje é um importante centro de comércio.

3 Comments:

Blogger dolino said...

Vindo de Chagas Freitas, não se poderia esperar algo de qualidade discutível. Chagas é uma personalidade singular e uma sensibilidade muito especial.
Alia tudo isso à generosidade de quem se dispoe a compartir com os mais pobres as fortunas que ele tem o privilégio de tocar.
Obrigado, meu amigo.

5:45 AM  
Blogger Sam said...

Chaguinha,
Como carinhosamente o Acre o conhece. Congratulacoes por compartir conosco um pouco da historia milenar dos povos do Oriente.
Sem duvida seus escritos sao de indiscutivel importancia e o nivelam aos grandes personagens da nossa Amazonia.
Um fraterno abraco,
Samuca

7:42 AM  
Blogger Ana Cláudia said...

Paps, que carta mais interessante. Nossa, adorei ter lido tanta informacao de uma forma tao leve. Parabens pelo excelente material. Beijos da sua filha,

Ana

2:19 PM  

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