PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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segunda-feira, outubro 22, 2007

CRIME E CASTIGO

Vila Plácido de Castro na década de 70

Desde criança tive vontade de viajar, conhecer lugares, viver grandes aventuras. Com só dez anos de idade arrisquei na primeira viagem, que na metade se transformou em pesadelo. Se arrependimento matasse, teria morrido nesse sábado de 1975. Família muito pobre, para não dizer miserável, morávamos num quarteirão mais miserável ainda, no bairro 6 de Agosto, proximidades da atual Fundação de Cultura Garibaldi Brasil, em Rio Branco, no Acre. Nesse lugar a fome mandava lembranças todos os santos dias. Quarteirão é uma grande casa dividida em vários quartos onde muitas famílias se amontoam para não ficarem na rua, mas pagando aluguel.

Num sábado bem cedo fui comprar pão na padaria que ficava onde hoje funciona o ponto de ônibus para Senador Guiomard, o Quinari, e na época era a rodoviária com ônibus para a Vila Plácido de Castro. Junto foi um garoto vizinho mais velho, que me fez o infeliz convite de viajarmos até lá. O coração disparou e recebi a primeira lapada de adrenalina. Mandei o pão para casa por um colega vizinho e deixei meu coração mandar em mim naquele dia. Queria viver aquela emoção, andar sozinho, sem ninguém para dar ordem ou dizer o que é certo ou errado. Entrei de cabeça no sentimento de liberdade rumo ao desconhecido. Criança não pagava passagem, não havia muito controle se estava acompanhada ou não.

Porém, o que era euforia de estar mandando na minha vida se transformou em pesadelo, num grande pesadelo. Meu pai, homem duro que falava com um cinturão na mão, jamais perdoaria minha rebeldia. Tinha certeza que o preço pela escapada clandestina seria alto. Logo no início o senso de razão mandava voltar. Mas, não tinha volta. O ônibus saia de Rio Branco às seis da manhã e voltava às seis da tarde. Rodava lentamente pela estrada de terra esburacada e muita poeira, sem pressa para chegar a lugar nenhum. Os passageiros, pessoas simples, nada conversavam. A maioria estava em Rio Branco para tratar da saúde ou algo parecido. Alguns fumavam e a fumaça fétida do lado de dentro e a poeira sufocante do lado de fora deixavam qualquer um maluco. Foram doze horas de sofrimento.

Chegamos a Plácido de Castro por volta da 11:00h horas e o sentimento de tristeza me pegou. Nada de fome nem sede, só queria voltar o mais rápido possível. O povoado era uma quadra com casas feitas de tábuas e cobertas de palha, ruas sem asfalto. Alguns comércios negociavam borracha, a maior riqueza naquela época. Lugar desolado e esquecido por Deus onde o homem teimava em viver. Em minutos se conhecia toda a cidade. Devido o desespero não saí de perto do ônibus, com medo de perder volta para casa. De Rio Branco à Plácido de Castro são só cem quilômetros, mas foi a distância mais longa da minha vida. Pensava na fúria do meu pai, no que aconteceria após o desembarque e isso me atordoava sem parar. Como bom cabrito não berra, tinha que enfrentar as consequências, a besteira estava feita e ponto final. Mas sabia que caminhava para o calvário.

Quando cheguei meu coração quase saiu pela boca. A primeira pessoa que vejo encostada numa mangueira era o meu pai. Ao descer ele se aproximou e cochichou: “quando chegar em casa vamos ter uma conversa”. Nesse momento o mundo desabou, sabia perfeitamente que conversa seria. Lá fomos nós. De cabeça baixa caminhando lentamente para retardar o castigo, ou para que meu pai mudasse o “tom da conversa” até chegar em casa. Não houve conversa no caminho. Eu na frente e ele atrás como se estivesse evitando fuga inesperada de minha parte. Que nada. Sabia que se fugisse o castigo seria pior. O percurso da rodoviária até em casa era de quinze minutos, mas demorei mais de meia hora na esperança de que Deus fizesse um milagre sobre a “conversa” que me atordoava. Se meu pai soubesse que durante a viagem já havia sofrido tanto, talvez tivesse pena de mim.

Ao chegar em casa, na verdade um pequeno quarto, mandou que minha mãe e meus irmãos fossem para fora. Trancou a única porta que havia, mandou-me ajoelhar e disse com uma corda na mão: - “agora vamos conversar”. Era o momento que mais temia. Como nunca fui de fugir da raia apenas disse “sim senhor”. Foi a maior surra que levei na vida. Calado, apanhava feito um bicho, enquanto ele gritava para que nunca mais fizesse esse tipo de coisa. A mãe do lado de fora gritava para que ele parasse de me bater, que a lição estava de bom tamanho para um menino. Que nada! Quanto mais batia mais raiva ele tinha. Calado, não suplicava por perdão, e a corda caia com mais força pelo corpo. Foram mais de quarenta minutos de peia, muita peia. Foi uma surra para ninguém botar defeito. Ao final ele perguntou “ainda vai fazer isso?”. Quase sem forças apenas respondi “não senhor”.

O resultado final dessa surra foram três dias de cama. Sem conseguir andar direito, moído, quebrado e a lição de nunca mais fazer nada sem a permissão dos pais. Essa foi apenas a primeira viagem, inesquecível, uma história que agora conto sobre a rebeldia impensada de um menino de apenas dez anos de idade.

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1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Boa noite!!!
Prezado Pitter,
Essas histórias são boas, nos permite voltar ao passado e vermos que tivemos várias lições, uma cara e outras não, mas que juntas formam nossas personildades e auxíliam nas decisões solicitadas.
Um forte abraço!
Michelângelo Torres

7:05 PM  

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