PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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sexta-feira, agosto 18, 2006

SAMAIPATA: MUSEU VIVO DOS ANDES

Em 1992 tive o prazer de fazer uma viagem pela Bolívia e conhecer o Museu Arqueológico de Samaipata, distante 120 quilômetros de Santa Cruz de La Sierra, rumo a Cochabamba. Um museu a céu aberto de rara beleza, e como tudo que é belo, de muito mistério, encravado nos pés da Cordilheira dos Andes.

Na localidade onde nasce a Cordilheira dos Andes, a paisagem cruceña, normalmente plana, torna-se pitoresca com colunas verdes cobertas de diferentes árvores floridas, de acordo com a estação do ano. O povoado de Samaipata se encontra cerca de dois mil metros acima do nível do mar. O museu mais ainda.

Na cidadezinha há uma igreja cujo altar, talhado em pedra, data de 200 anos d.C., ou seja, mais de 1.800 anos de construção. As ruínas arqueológicas de Samaipata estão há dois quilômetros antes do povoado e são chamadas de “El Fuerte”, com data de 500 anos d.C., sendo um dos complexos arqueológicos mais importantes da Bolívia e da América Latina.

Quem desejar visitar as ruínas tem que sentir afeição ao esporte, para poder escalar o cume das montanhas por um caminho um tanto difícil, mas prazeroso ao final da subida. A caminhada começa num pequeno salto de água chamado de “El Chorro” sobre a estrada, cerca de 13 quilômetros antes do povoado.

Uma vez chegado ao cume, a vista não tropeça mais em nenhum obstáculo abarcando um vasto panorama de picos, ladeiras e montanhas, formando uma paisagem difícil de descrever em papel.

Baleia gigante
Descendo em direção ao sol nascente, a cobertura da terra vegetal de repente se rasga, revelando o dorso nu de uma rocha acinzentada como o lombo de uma gigantesca baleia, esculpida numa superfície de uns 200 metros de comprimento por 60 de largura. A beleza da escultura revela uma infinidade de talhas perfeitas, parecendo feitas por mãos divinas.

Do cume tem-se a ligeira impressão de que o monumento foi feito para contemplar das alturas os astros e o universo. Parece que os picos e as montanhas não se atreveram a desafiar o vertical para tirar a beleza do mistério divino do nascimento da Cordilheira.

Descrever com precisão as figuras e talhados desta colossal arquitetura transbordaria a intenção deste breve artigo, de forma que enfocarei apenas o superficial de seus elementos mais significativos.

Seguindo em direção Oeste há uma rocha que tem a figura mais espetacular de todo o complexo. Lembra uma serpente cascavel cortada em três fileiras intercaladas com mais de 30 metros de comprimento aproximadamente. Sem dúvidas, aquela rocha está relacionada com o ancestral costume do culto à mãe natureza.

Traços da cultura Inca
Os administradores de Samaipata afirmam que a construção do “El Fuerte” tem participação do povo Inca. As similares estruturas foram encontradas próximo à cidade peruana de Cuzco e em outras comunidades andinas. Assim se confirma a orientação da cobra cuja cabeça aponta 22 graus Sul do ponto cardinal Oeste, o que coincide com a saída do sol no dia 21 de dezembro, correspondente ao dia mais longo do ano.

Outra estrutura de muita relevância, mais adiante, é o “Oráculo dos Sacerdotes”. Trata-se de duas fossas talhadas na Rocha-Mãe. O círculo externo tem 18 bancadas alternando-se simetricamente triangulares e quadrangulares. No entanto, no círculo interior existem somente nove pequenos bancos retangulares em sentido oposto.

Esta misteriosa “mesa redonda” era destinada à mais alta hierarquia. Um lugar de reunião reservado aos máximos dignitários políticos ou sacerdotes da época. É impossível descrever com detalhes a incrível confusão de bancos, lugares, figuras, fossas, orifícios, escadarias, canais, relevos etc., que existem na rocha, parecendo feitos obedecendo a um plano mestre.

Pelo lado Norte da rocha, se destaca a construção de cinco grandes sepulturas primorosamente esculpidas e cobertas devido sua importância. Ao Sul, talhados na mesma base da principal, se encontra uma longa fileira de sepulturas duplas de feitura similar às do Norte, possivelmente lugares destinados a assentos de ídolos ou objetos de culto. A fila de sepulturas termina com algumas portas fechadas, de maior tamanho, que parecem terem formado parte das antigas câmaras habitacionais, conhecidas como “Casa dos Sacerdotes”.

O forte de Samaipata, como produto natural do passado, é um triunfo da inteligência humana sobre a caprichosa natureza. Para mim, conhecer as ruínas arqueológicas deixadas pelos Incas na Bolívia, foi mais que um prazer: foi sentir o encontro do homem atual com os mistérios do ontem, de um ontem, que já vai longe.

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