PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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quinta-feira, agosto 03, 2006

CHEIRO DE TERRA MOLHADA

Quando o avião pousou em Rio Branco, por volta das 23h30min de sexta-feira (23), meu coração disparou de alegria por dois motivos: primeiro por está vivo e, segundo, por voltar à minha terra natal onde se respira política 24 horas por dia e todo mundo sabe da vida dos outros. Como acreano do pé rachado que sou, o tempo que estou fora aumenta a saudade dos amigos que conquistamos no decorrer dos últimos 30 anos.

Logo no aeroporto em Brasília, quando se olha para os lados, sempre damos de cara com alguém que conhecemos. Começa nesse momento uma jornada de conversas amigáveis e infindáveis que, como de costume, acaba na maioria das vezes, em qualquer mesa de bar.

Ao desembarcar em Rio Branco, via de regra, vaguei pelos bares da vida em busca dos amigos de velhas datas e das estórias que só uma cidade de muro baixo tem para contar. Ao passear pelas ruas da minha cidade notei que muita coisa havia mudado. Mudado para melhor, pelo menos esteticamente.

Naveguei pela noite sem rumo, sem bússola, apenas seguindo os passos do sentimento e do vento que embalava a madrugada. Não queria perder tempo. Como uma criança sai brincando com quem encontrava pela frente. Cumprimentei policiais, prostitutas, taxistas, boêmios e até para um sinaleiro vermelho desejei boa noite. Mesmo sem ter chovido, minha alma sentiu o cheiro de terra molhada.

Viajei pela madrugada como um sonho. Um sonho de alma limpa e de coração puro recheado de luzes e músicas. Estava eu vivendo e sonhando no meu mundo particular. O mundo que somente eu sei a importância que tem. Esgotei a saudade que sentia pelas cores, luzes e cheiro das pessoas e das curvas da minha cidade. Perambulei e vadiei noite afora, pela vida adentro.

Como bom acreano e boêmio, logo que os primeiros raios de sol levantam, estava eu no Mercado do Bosque procurando com olhos amiúdes a “baixaria” da Toinha. Toinha é uma velha amiga que sabe como ninguém o preparo especial da minha “baixaria”. “Baixaria” para quem não sabe é um prato composto de carne moída, cuscuz, ovos fritos e cheiro verde. Isso tudo acompanhado de mingau de banana ou tapioca.

Os freqüentadores do Mercado do Bosque são as dezenas de pessoas que saem das festas e vão recarregar a bateria comendo a tradicional “baixaria”. Aliás, essa é a única baixaria que tolero. Servida nas primeiras horas da manhã e sem confusão.

É no Mercado do Bosque onde se encontra velhos amigos da boêmia. Alguns ainda entornando a água que passarinho não bebe acreditando que a noite não acabou. Outros tentando melhorar o juízo depois da carraspana ingerida nas horas passada. Tem ainda os que transformaram o ambiente em ponto de encontro.

Os homens por sua vez, como sempre, estão contando lorotas e vantagem sobre alguma coisa ou alguém. Estão sempre em primeiro lugar, sabendo de tudo e controlando mais ainda. As mulheres, por outro lado, aparecem com cabelos molhados ou desalinhados. Algumas com amplo sorriso no rosto, talvez resultado de uma noite de amor, outras emburradas com possibilidades de efeito contrário.

Mas, ao final tudo é alegria e confraternização de uma noitada. Foi exatamente lá que no amanhecer do dia, ouvir Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Cartola, Noel Rosa, Pixinguinha e tanto outros boêmios, na voz rouca de apaixonados que choravam nas cordas de um surrado violão.

Literalmente, o Mercado do Bosque é o local onde se reúnem, respeitosamente, gente de todas as raças, cores, credos e classes sociais.

Um amigo conheceu Rio Branco e, após beber da água barrenta do rio Acre se apaixonou pelo que viu que, por pouco, muito pouco, não retorna à Brasília. Está certo ele, o Acre realmente é apaixonante tanto por suas histórias como por sua gente. Esse meu amigo resumiu o que sentiu: “Rio Branco é tudo, menos aquilo que imaginamos que ela seja”.

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