PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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terça-feira, agosto 22, 2006

PADRES JOSÉ E PELEGRINO: OS CONTADORES DE CAUSOS

Igreja São José, onde os padres José e Pelegrino celebraram suas últimas missas

Os padres José Maria Carneiro de Lima, e seu irmão Pelegrino, foram daquelas figuras que jamais serão esquecidas no Acre. Suas estórias e, principalmente seus sermões nas missas de domingo, lotaram a pequena igreja do município de Plácido de Castro, durante mais de 40 anos.

Padre José era irmão mais novo e mais extrovertido. Pelegrino, mais sério, sisudo, tinha como doutrina o conservadorismo da igreja católica. José e Pelegrino, da Ordem Servos de Maria, morreram na década de 90, suas estórias, entretanto, continuam vivas nas mentes e corações de milhares de acreanos que conviveram com eles por mais de quatro décadas.

Nascidos no interior do Ceará, José e Pelegrino, ainda adolescentes, decidiram pela vida religiosa e os ensinamentos de Jesus em ajudar os mais necessitados. Depois de concluir o curso de Teologia na capital cearense, seguiram para a Itália terminar os estudos de formação em padre. Durante a Segunda Guerra Mundial, retornaram ao Brasil optando pela cidade de Plácido de Castro, um pequeno povoado no interior do Acre, para viverem a vida sacerdotal.

Os dois irmãos não eram difíceis de serem identificados em meio a uma multidão. Desde quando foram ordenados padres no Vaticano, nunca mais deixaram de usar a batina preta. Não usavam outra vestimenta, fosse para rezar uma missa, casamento, batizar, cultivar a terra, caçar ou pescar. A mesma roupa vestiam para uma simples reunião com agricultores, como para encontros com o Papa em Roma. Os amigos mais próximos dos sacerdotes afirmavam que José e Pelegrino dormiam com a roupa de trabalho.

José e Pelegrino se gabavam de serem excelentes caçadores. Não só de fiéis, mas, de animais da mata também. Caçavam por prazer, diversão. À época não havia o Ibama para pegar no pé de ninguém. Durante as desobrigas nos seringais, algumas duravam meses, os sacerdotes não deixavam escapar uma boa caçada. Os animais abatidos serviam de alimento na casa onde estavam hospedados. O clima por onde passavam era sempre de muita alegria. A missão deles era levar a palavra de Deus aos seringueiros, casar e batizar seus filhos, enfim, ensinar a mensagem da paz e amor ao próximo, mesmo quando esse próximo estivesse o mais distante possível.

Aos domingos a igreja estava sempre lotada de fiéis para ouvir o sermão da semana. Em vez do sermão de praxe, contavam em detalhes as caçadas que haviam feitos durante o período das desobrigas. Nos detalhes, eles aumentavam um pouco de tudo. Se um veado pesava 20 quilos, faziam questão em afirmar que ultrapassava aos 80 ou 100 quilos. Chegaram a contar certa vez que com apenas um tiro de espingarda mataram dois animais ferozes. Essas estórias ninguém discutia. Imagine discutir a caçada dos padres.

Histórias de caçadores
Além de caçadores, José e Pelegrino tinham a fama de grandes contadores de estórias. Numa dessas caçadas, conta padre Pelegrino, passava pelo meio da mata quando escutou uma marchinha de carnaval: “o jardineira porque estás tão triste mas o que foi que aconteceu”, após alguns segundos a música repetia a mesma frase. O padre, curioso como de costume, se aproximou e desfez o mistério: um pedaço de disco com músicas de carnaval embalado pelo vento, fazia contato com um espinho e fazia a música tocar.

Numa outra caçada, padre José afirmava que seus dois cães de caça não conseguiam encurralar uma paca para ser abatida. Depois de uma hora de muita correria, o caçador avistou rapidamente que a paca tinha oito pernas, isto mesmo, oito patas. Desse jeito, os cães com apenas quatro patas, nunca iriam pegar aquele animal estranho. José pensou, pensou e pimba: encontrou a solução. Chamou os dois cães e amarrou um de costas no outro. Assim, quando um cachorro estivesse cansado dava um pulinho, se virava no ar, e o outro continuava a perseguição. Dito e feito. Em menos de meia hora a paca estava no jamaxi do padre.

Em outra oportunidade, José e Pelegrino foram chamados às pressas para uma reunião com o bispo em Rio Branco. Os dois tinham um jipe velho que utilizavam nos trabalhos religiosos na zona rural. Apressados entraram no jipe e saíram quase voando pela a estrada que à época não tinha asfalto. Contam eles que, numa curva muito fechada quase cometem um grave acidente. Por conta da alta velocidade do jipe, ao fazer a curva, tiverem muita sorte de não bater na placa traseira do próprio jipe que dirigiam. Escaparam do acidente por milagre.

Mestres da comunicação
Causos a parte, José e Pelegrino foram os maiores comunicadores na vida sacerdotal e no serviço de evangelização da Amazônia e do Acre. Nos seringais, nas colônias, onde estivessem, incorporaram o espírito da humildade para se comunicar. Com muita sapiência souberam se aproximar e evangelizar um povo falando das coisas da floresta, dos problemas do dia-a-dia. Trouxeram para junto de si a cultura do homem amazônico e, através dessa cultura, geraram mitos na construção do caminho entre o homem e Deus.

Esses dois sacerdotes dedicados e atenciosos com os mais necessitados, devem estar alegrando o céu com essas e outras estórias dos seringais da Amazônia. Uma Amazônia que conheceram como ninguém, desde os mistérios da mata, os rios como o Abunã, seringueiros e ribeirinhos. Levaram consigo para o céu, os segredos de sua gente e os encantos da floresta que tanto amaram. Eles foram e deixaram saudades, muitas saudades.

6 Comments:

Blogger Acreanista said...

Esquecidos pela igreja, abandonados a própria sorte, principalmente Padre José, foram desbravadores em um Acre sem lei. Utilizavam-se das "estórias" para fazer a aproximação, ficando conhecidos como contadores de causos. Eram as vozes mais conhecidas no interior deste Acre (quem sabe mais azedo do que outros Estados), onde as autoridades esqueciam seus "cidadãos". Talvez um dia os dois (santos) irmãos recebam o reconhecimento que lhes é de direito.
Abraço meu amigo Pitter.

1:10 PM  
Anonymous Anônimo said...

Vc só esqueceu de comentar que Padre José viveu e trabalhou por muitos anos na Igreja São Sebastião em Xapuri.
Um abraço.

11:30 AM  
Anonymous Roberto Feres said...

Boa lembrança Pitter,
Fui vizinho do padre José, quando minhas filhas eram bebes e ele brincava com elas quando passeavamos na calçada.
O que mais me impresionava era o contraste das mãos calejadas de mecânico com a delicadeza dos gestos e do carinho com elas.
Fortíssimo abraço
R.Feres

7:21 AM  
Blogger Aleta said...

me passaram seu blog, te achei... estou indo para brasília, quero te ver... beijos

9:30 AM  
Anonymous Helen Aragão said...

Morei em Xapuri nos anos de 1974 e 1975, e se hoje afirmo que tive uma infância feliz, é porque vivi coisas que talvez não teria vivido em outro lugar. Pensa numa turma de meninas carregando cada uma o seu bonecão. Na nossa imaginação eles tinham direito a tudo. Comiam, dormiam, tinham roupas feitas em costureira e sentiam frio. Até que um dia decidimos marcar data do batizado coletivo de todos eles, com direito a festa e tudo. E antes da recepção levamos os bonecos para o Padre José batizar. É praticamente impossível esquecer a figura lendária do Padre José.

12:23 PM  
Anonymous Araujo (jgaraujont@hotmail.com) said...

Tive a felicidade de morar no Acre de 75 a 77 e uma maior ainda de conhecer os dois. Frei Peregrino em Plácido de Castro (onde construia com as próprias mãos uma igreja) e o Padre José que muitas vezes, apesar de morar em Xapuri, esteve em nossa casa em Rio Branco. Quem não se lembra do quiabo de 2 metros? ou do socorro ao seringueiro que ao ser carregado dentro da selva fazia secar as árvores ao seu redor de tão quente de febre? ou ainda a bicicleta de madeira, que subia até em árvore? Há tempos maravilhosos da minha infância.

4:08 AM  

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