PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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segunda-feira, julho 14, 2008

O SERINGUEIRO E O MUNDO

Cidade grande deve ser um lugar desejável para milhões de brasileiros. Quando se chega a esse lugar percebe-se que o buraco é mais embaixo e a vontade de voltar para uma coisa pequena é sempre presente. Muitas pessoas, suburbanas de vidas passadas, se adaptam aos novos locais de sobrevivência como se nada acontecesse. Outras, entretanto, vivem olhando com saudosismo o passado de histórias puras e inconscientes da realidade da vida. Dois mundos, duas realidades.

Quem vive na cidade grande não tem idéia do que é a vida num seringal. O isolamento do homem do mundo o transforma num ser primitivo apegado apenas pelos atos de plantar, colher, pescar, caçar e fazer menino. A diversão do seringueiro, na sua pura essência, é fazer menino. Todo ano é um menino ou menina. Se na cidade a situação é assim, mesmo com o planejamento familiar, imagine onde não há televisão. A média de filhos nos anos 60, 70 e 80 era de 10 crianças por casal. Há casos de muito mais, 15, 20 e até 25 crianças para alimentar.

O seringueiro é um homem de fibra, trabalhador, corajoso e, acima de tudo, de um coração muito grande para receber seja qual for a visita em sua casa. Está sempre de braços abertos para recepcionar alguém, seja conhecido ou não. Gosta de uma prosa como ninguém porque vive isolado na floresta feito bicho. Ele quer saber das notícias sejam quais forem. Além da rede para o visitante, sempre tem uma cachaça para os momentos especiais. A vida não pára. Assim como as galinhas se arrumam para dormir, os galos cantam ao despertar e anunciar o dia seguinte que desponta no horizonte, o seringueiro e a natureza é uma simbiose mágica e perfeita .

Viver na floresta não é nada fácil, mas também, não é difícil. O homem e sua prole observam o dia seguinte sabendo que se não trabalhar não há sobrevivência no futuro. Então ele trabalha feito um condenado para que não falte comida na boca da meninada. Enfrenta a selva para retirar o látex da seringueira em dias intercalados, trabalha no roçado de plantações, além de caçar e pescar nos finais de semana para manter a mistura nas refeições diárias da família.

O homem da floresta é destemido e orgulhoso. Lembro de meu pai que passou mais de 30 anos na floresta trabalhando, gerando riquezas para esse país chamado Brasil que hoje o ignora. Assim como meu pai que viveu uma vida inteira sob as botas da escravidão branca, até hoje, basta procurar nos mais distantes rincões da Amazônia, que centenas de milhares de pessoas ainda vivem na miséria, sem lenço e sem documento. De uma coisa tenho certeza: preferem viver a vida que conhecem na sua mais singela dignidade, sendo explorados, do que ir para a cidade passar fome ou tratados como mendigos nos bolsões da miséria humana.

A selva de pedra não faz bem ao homem da floresta. Por outro lado, o homem da cidade gosta do mato para se divertir de todas as formas: trata seu semelhante como um ser primitivo e adora tirar fotos. O que ele não sabe é que o sentimento de brasilidade, honradez, honestidade e esperança, está enraizado na profundidade do caráter do seringueiro que de tudo sabe e tudo ver sobre o mundo que vive. Enquanto que, os intelectuais de plantão desse mundo, não sabem nada. Absolutamente nadica de nada.

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