PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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segunda-feira, março 17, 2008

RAIMUNDO CABELUDO E O GOLPE DE 64

Recebi email do grande amigo e companheiro de muitas batalhas, Francisco Dandão. E é com grande prazer que partilho o artigo do mestre Dandão com os leitores deste modesto blog.

E aí, meu grande Pitter Lucena, como estão as coisas nas vísceras do poder?
Sou assíduo freqüentador do seu blog. Como sempre, você dá o recado com grande maestria. Muito interessante essa seção recém-inaugurada com imagens antigas. Uma verdadeira viagem no túnel do tempo. Vou dar uma busca nos meus alfarrábios para ver se encontro alguma coisa que possa mandar para você, nesse sentido de imagens de antigamente.
Mas uma outra coisa: o Raimundo Cabeludo pediu-me que lhe avisasse quando fosse publicada uma entrevista que fiz com ele, sobre reminiscências do Golpe Militar de 1964. Então... Já está no ar. Acesse o meu site (www.franciscodandao.com), seção "Entrevistas".
Um abraço.

Nota do editor: Raimundo Cabeludo (foto acima) é uma das poucas pessoas que chamo de amigo.

Em abril deste ano de 2008, 44 anos depois da deflagração da Revolução Militar de 1964, o professor universitário aposentado Raimundo Lopes de Melo, mais conhecido nos círculos de amigos como Raimundo Cabeludo, mestre em Organização do Espaço Agrário pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), completará 64 anos de vida.

A coincidência de datas se confunde com as histórias tanto da Revolução Militar quanto da vida deste filho do município de Plácido de Castro, ex-presidente do Sindicato Rural de Rio Branco, ex-presidente da Associação de Docentes da Universidade Federal do Acre (Adufac) e hoje proprietário de uma vasta área de terras na estrada de Sena Madureira.

A convergência dos destinos começou em 1959, quando Raimundo Cabeludo foi mandado pela família para estudar no Rio de Janeiro. Ele deveria, em princípio, estudar Medicina Veterinária. O tio Raimundo Moreira de Melo, com quem Raimundo Cabeludo passou a morar em terras cariocas, entretanto, acabou o influenciando a seguir a carreira militar.

Assim, em 1962, depois de dois anos como voluntário na Marinha, Raimundo Cabeludo ingressou de vez na corporação. Mais dois anos depois, no dia 1º de abril de 1964, quando a Revolução Militar explodiu nas ruas do país, lá estava o acreano no epicentro do furacão, fazendo parte da diretoria da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil.

Entidade encarregada de reivindicar os direitos dos praças subalternos, a Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, presidida pelo lendário Cabo Anselmo, foi imediatamente execrada pelos novos donos do poder. E, naturalmente, todos os seus militantes considerados subversivos. Muitos sendo presos e expulsos da corporação.

Numa época de absoluta exceção, com as liberdades individuais cassadas, a censura da mídia, o fechamento do Congresso Nacional; com militantes de esquerda torturados e assassinados; com o sangue, o medo e a opressão manchando o asfalto das ruas e o verde dos campos, pode-se imaginar no que se transformou a vida do acreano Raimundo Cabeludo.

Embora o seu processo de anistia continue inconcluso em algum escaninho da burocracia nacional, Raimundo Cabeludo se considera um sobrevivente. Feridas cicatrizadas, liberdades políticas restabelecidas, testemunha ocular e personagem (a um só tempo protagonista e vítima), ele solta a voz sem nenhum temor para contar a sua versão da história.

No seu ponto de vista, o que foi a Revolução de 1964?
Para mim, que fui militar, e tive uma participação muito grande na Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, primeiramente, nunca chamamos aquilo de revolução. O que aconteceu, no meu entendimento, foi uma grande quartelada e que já vinha sendo preparada há mais de uma década. Lamentavelmente ela se consumou no início do ano de 1964, com a derrubada do poder constituído, do governo democrático do presidente João Goulart. Essa revolução, que colocou os militares durante 20 anos no poder, representava, principalmente, o interesse dos capitalistas internacionais e de um grupo brasileiro envolvido, que era uma pequena minoria, que tinha sobre o seu controle a hegemonia dessa classe dominante. Nesse contexto, os militares entraram em ação, tomando o poder através dessa quartelada. No meu ponto de vista foi isso. Em cima disso, houve perseguições e mortes não admitidas por eles. E tem mais um detalhe: a maioria dos generais que foram empossados no poder foi preparada, tanto em academias militares americanas quanto brasileiras, pra mudar qualquer estrutura progressista que pudesse incidir sobre a nossa sociedade.

Você chegou a participar diretamente em algum tipo de ação?
A importância da minha participação diz respeito ao fato de que eu era militar na época. Eu incorporei na Marinha em 1962 e fui um dos fundadores da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, entidade cujo primeiro e único presidente foi o cabo José Anselmo, um grande líder, a meu ver. Na comemoração do segundo ano de fundação da referida associação, como não era uma entidade bem vista pela cúpula das Forças Armadas, eu e os demais companheiros, inclusive um outro acreano chamado Adson de Souza Leite, natural de Tarauacá, fomos todos presos. A maioria, depois de algum tempo, foi expulsa. Fomos presos no dia 31 de março e o golpe aconteceu um dia depois, em 1º de abril de 1964. A Marinha tinha um líder, que era o almirante Aragão, comandante geral do corpo de fuzileiros, muito ligado ao presidente João Goulart, de forma que todos os subalternos dele já eram considerados imediatamente suspeitos. A minha participação se deu em torno disso. No segundo semestre de 1965, me colocaram num avião para voltar para o Acre, entendendo que estavam me castigando, porque para alguns deles, assim como algumas pessoas ainda pensam até hoje, aqui era um lugar que só tinha índio, cobra e onça. Claro que era um castigo menor, mesmo na visão deles, que achavam que se eu ficasse por lá corria o risco de ser assassinado.

E sobre o cabo Anselmo, o primeiro presidente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, em princípio figura de frente do movimento de resistência à Revolução Militar, mas posteriormente tido por alguns como traidor, quem era ele? Traidor ou herói?
O cabo José Anselmo, como todos os fuzileiros e marinheiros daquela época, tinha alguma leitura e era viajado. Além disso, ele tinha uma grande capacidade de organização e liderança, principalmente com relação aos seus subalternos. Ele era um homem risonho, uma figura extremamente carismática, alegre, transmitia felicidade. Eu tive a ventura de participar com ele de algumas reuniões, tanto na nossa associação quanto em alguns quartéis e, pra mim, ele era exatamente o que se dizia dele: que ele era, verdadeiramente, um soldado almirante. Ele tinha comando, ele tinha determinação, ele tinha tirocínio, tinha uma visão muito grande. Todas essas qualidades eram intoleráveis para os golpistas. E assim, logo após o golpe, o cabo Anselmo foi preso. O detalhe interessante, que tem passado despercebido pela história, é que nós conseguimos soltar o cabo Anselmo dando cem dólares para o delegado da cadeia onde ele estava preso. Um cidadão por nome Flávio Tavares, se não estou enganado o nome era esse, foi quem fez a cota, a qual, inclusive, eu cheguei a contribuir. Depois disso, o que eu acho, levando em conta que todo mundo precisa de dinheiro, bem como de favores, é que os militares corromperam o cabo Anselmo, da mesma maneira como corromperam o general Amaury Kruel, que, além de comandante do III Exército e Ministro da Guerra, era amigo e compadre do presidente João Goulart. Esse general, aliás, se vendeu por 500 mil cruzeiros, na época. Os boatos do momento davam conta que o general Amaury Kruel teria sido comprado pelo diplomata Lincoln Gordon, que era o embaixador americano no Brasil. Dizia-se também que esse embaixador tinha capacidade para comprar todos os oficiais em posição de comando. Ora, se o embaixador tinha cacife para comprar um general, que diria um pobre coitado de um cabo, simples líder de fuzileiros e marinheiros. Penso que o Anselmo deve ter ficado encantado com algumas promessas e aí ele passou a ser traidor. Para nós, esquerdistas, naquele momento ele poderia morrer, mas jamais entregar os companheiros. E o Anselmo se vendeu para os militares de plantão e entregou os companheiros. Passou da possibilidade de se transformar em herói para a condição de reles traidor.

Como é que ficou a sua vida depois da deflagração da Revolução?
Só quem sofreu com o regime militar é que sabe as dores e os castigos que eu passei. Era uma perseguição absurda. Para se ter uma idéia, naquele tempo, só o fato de uma pessoa ser chamada de comunista era como se essa pessoa estivesse sendo chamada de filho da puta. Então, imagine-se um rapaz pobre, filho de seringueiros, o que não sofreu... Era uma espécie de pária social. Em outubro de 1965, eu fui tirado de formatura, no Rio de Janeiro, por dois sargentos e um oficial, do qual eu não lembro o nome, e me levaram para um quartel, por ironia do destino situado numa rua chamada Acre. No dia seguinte, eles me colocaram num avião da companhia Cruzeiro do Sul, rumo ao Acre, dizendo-me que se eu ficasse no Rio de Janeiro seria assassinado nos próximos dias. Ao chegar a Rio Branco, eu fui imediatamente convidado a comparecer ao quartel do Exército, para prestar esclarecimentos. O comando do Exército local já tinha todas as informações sobre a minha pessoa. As notícias que corriam aqui é que eu havia sido expulso da Marinha por subversão. Durante muito tempo eu tive que comparecer ao quartel do Exército de Rio Branco duas vezes por semana. Eu, Hélio Kury, Ariosto Pires Miguéis, João Borborema e outros. Muitos ficavam lá no quartel sem nem saber por quê. E pior do que comigo foi o que fizeram com o Adson Leite, que ficou dois anos preso na Ilha Grande e só por muita sorte resistiu a todas as surras que levou. E quando ele finalmente conseguiu vir embora para Tarauacá, um dia ainda foi recambiado para Rio Branco algemado pelo Exército. No meu caso, que muitas vezes precisei cortar lenha para arranjar algum dinheiro, correu uma história de que eu ia para o mato por ordem do Fidel Castro, para incitar uma revolta armada camponesa. Mas não contente com tudo isso, eu ainda cometi a suprema besteira, isso já em 1968, de botar o nome do meu primeiro filho de Stalin Che Guevara. Até hoje eu sou marcado por isso. Na atualidade, a esquerda me chama de direitista, e a direita diz que eu sou o pior dos piores. Depois de tudo, o que eu gostaria mesmo de dizer é que a esquerda brasileira sempre foi “traíra”. Para a esquerda brasileira, você só tem valor quando pode oferecer alguma coisa. Depois eles te descartam. Essa é a esquerda brasileira que eu conheço. Só fui melhorar mesmo quando consegui entrar para o quadro de professores da Universidade Federal do Acre, através de concurso público, embora tenha levado mais de ano para me chamarem. Mas, ainda assim, passei muitos anos sendo vigiado, mesmo como professor universitário.

Existe uma história de um suposto recrutamento seu para servir na guerrilha estabelecida no território boliviano, sob o comando de Che Guevara... Isso é verdade?
Naquele momento, no Rio de Janeiro, se aglutinava todo o tipo de mercenário. Eu, inclusive, conheci pessoas que recrutavam brasileiros, principalmente fuzileiros navais, para servir na África e no Oriente Médio, para trabalhar como mercenário, como matador. Era mais fácil recrutar fuzileiros navais, porque estes já possuíam treinamento de guerra. Eu conheci um desses recrutadores e ele chegou a me propor uma missão. Isso, depois que eu já havia sido mandado para o Acre e havia voltado para o Rio de Janeiro. Essa volta ao Rio, aliás, merece até um capítulo a parte. Eu tive que sair do Acre às carreiras, fugindo de uma ordem de prisão expedida por um secretário de justiça local, chamado Aluísio Queiroz. Isso ainda por conta das denúncias de subversão. Saí de Rio Branco de carona num caminhão até Porto Velho, onde peguei um avião. Mas, então, continuando a história, o fato é que eu estava no Rio de Janeiro quando fui abordado por esse recrutador, tentando me encaixar no esquema do Che Guevara. Esse cara me deu dinheiro para, mais uma vez, retornar ao Acre, onde, na seqüência, eu deveria me juntar ao Che Guevara, na Bolívia. Tudo certo. Eu tinha até um codinome, que era “Camarada Expedito”. O que atravessou a história foi que ao chegar ao Acre eu acabei arranjando uma namorada. Me apaixonei e me casei com essa namorada e não fui para a aventura da guerrilha na Bolívia. Fui relapso com o compromisso assumido. Abandonei a guerrilha pelo sexo. Mas, penso que essa namorada acabou sendo a minha boa sorte.

Depois dessas histórias todas, na sua opinião, que país é esse?
Para compreender o Brasil dos dias atuais, a gente precisa fazer um passeio pela história, desde a Segunda Guerra Mundial. O Brasil, quando entrou no contexto do conflito, simpático, em princípio, às teses nazistas, passou a ser mal visto pelos países aliados, principalmente pelos Estados Unidos. Os dirigentes brasileiros, logo no início da guerra, não eram muito afeitos à democracia americana, nem ao capital judaico e burguês internacional. Depois, por conta de uma conveniência de momento, o Brasil aderiu aos aliados e, logo em seguida à guerra, começou a se preparar para ser um grande paraíso desse capital internacional e das multinacionais. Eu acho que de 1954, quando da morte de Getúlio Vargas, a 1964, quando do golpe militar, foi o período de preparo dessa sociedade brasileira da qual nós fazemos parte hoje. Em 1955, por exemplo, já houve uma primeira tentativa de golpe, por iniciativa da Aeronáutica, o Golpe de Aragarças. Só que não vingou. Mas, dali, os militares foram cada vez mais se preparando. Com os militares se preparava também a burguesia brasileira. A grande onda de violência que nós temos no Brasil de hoje, fartamente divulgada pela mídia, se dá por conta dessa herança maldita deixada por sucessivos governantes venais, que ao longo desse tempo estiveram a serviço desse capitalismo selvagem internacional. É por conta disso que nós não temos hoje educação de qualidade, saúde digna e moradia para os mais pobres, essas mazelas todas. É por conta disso, também, que a renda está concentrada nas mãos de cinco a dez por cento da população brasileira. O Brasil vive uma guerra civil. Mais pessoas são assassinadas por ano aqui no Brasil do que em muitos países que, efetivamente, estão passando por conflitos armados. É esse o retrato do país em que nós vivemos hoje.

Levando em conta esse quadro caótico que você pintou, é possível ainda alguma utopia para a nação brasileira?
Com uma população de aproximadamente duzentos milhões de habitantes, um país continente, com um caldeamento étnico de tudo que é raça que se pode imaginar, eu penso que nós precisamos de uma grande revolução cultural. Se isso não der jeito, aí só mesmo uma revolução de fato e de direito. O certo é que eu acho que o Brasil precisa, praticamente, ser outra vez reconstituído. As mazelas que nós carregamos são extremamente graves e complicadas. Só mesmo uma reconstituição geral para dar um jeito nisso aqui!

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