PITTER LUCENA

Jornalista acreano radicado em Brasília

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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

DOM MOACIR: O PASTOR DOS DESERDADOS

A partir de agora estarei postando as histórias dos personagens do livro Brava Gente Acreana produzido pelo gabinete do ex-senador Geraldo Mesquita Júnior. Os personagens, a começar pelo arcebispo Dom Moacir Grechi, deram grande contribuição para o desenvolvimento do estado do Acre. Boa leitura.

Testemunha e protagonista da história do Acre

O arcebispo de Porto Velho, Dom Moacyr Grecchi, que foi bispo da Prelazia do Acre e Purus durante 25 anos, completou 72 anos em 19 de janeiro de 2008 e deve se aposentar compulsoriamente em 2011. Ele nasceu na cidade catarinense de Turvo, em 1936, foi ordenado padre aos 25 anos em Roma. Em 21 de outubro de 1973 ordenou-se bispo em Rio Branco, de onde só saiu em 1998 para assumir a arquidiocese de Porto Velho, que abrange 13 municípios com praticamente a metade da população de Rondônia, em torno de 750 mil almas. Também foi presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra) durante oito anos.
Durante sua permanência em Rio Branco Dom Moacyr foi testemunha e protagonista da chegada dos fazendeiros, dos conflitos pela posse das terras e da violência do esquadrão da morte. Foi uma das principais testemunhas que levaram à prisão do ex-deputado e ex-coronel Hildebrando Paschoal.
Em Porto Velho, Dom Moacyr foi vítima de dois acidentes de carro e passou 15 dias inconsciente no primeiro deles, mas não arrefeceu. Com um programa diário na rádio católica Caiari, o arcebispo continua lutando pelos sem-terras, contra a violência e denunciando a retirada ilegal de madeira das reservas florestais e pela corrupção na política. E, infelizmente, ainda recebe ameaças de morte.

O pastor dos deserdados
Quando a maioria dos brasileiros ainda desconhecia o Acre, ele já era o bom pastor que se debruçada sobre as aflições dos deserdados, dos órfãos da terra de Aquiry, dos violentados pela ignomínia dos avarentos.
Ele se chama Moacyr, mas não é um Moacyr qualquer. Ele tem o dom, o dom de Dom Moacyr, o sacerdote que prega a salvação da alma cristã que deve chegar ao paraíso, mas que também não esquece a realidade terrena: quer dignidade para o povo.
Com a Bíblia Sagrada na mão e a oração inconteste na boca, ele enfrentou os fuzis, os cachorros, a sanha dos poderosos, os jagunços, o pecado da ganância, a motosserra, o latifúndio e os criminosos que procuravam o Acre como um refúgio esquecido.
Como um Che de batina jogou duro contra a hipocrisia sem jamais deixar de ser terno, doce, pacífico, amante da alma humana. Há quem diga que a história recente do Acre se divide em antes e depois de Dom Moacyr.
E lutou com a coragem de quem confia em um Deus Onipotente. E isso em um tempo onde o medo imperava e o sangue dos justos manchava a terra acreana. Lutou quando muitos se revelavam temerários, inibidos que eram pelas baionetas.
O homem e o padre eram um só em suas ações. Seu palácio sempre foi aberto para os pobres, opção que fez muito antes de Puebla. Sua igreja sempre foi os seus sapatos, suas sandálias, seus óculos, sua voz e seu catecismo dos direitos humanos.
Dom Moacyr se apaixonou pelo Acre à primeira vista e carrega esse sentimento consigo para sempre. E o melhor é que ele tem a certeza de que sua luta valeu a pena. Não foi em vão. E, humildemente, ele agradece a Deus em oração.

União do povo
Eu fui forçado pelo povo, que vinha dos seringais, famílias expulsas e que não tinham a quem reclamar. Então reclamam ao bispo. E eu, que tinha a idéia de que o sacerdócio era apenas a sacristia, que minha função era só pregar o evangelho, dar os sacramentos, tentar manter o pessoal unido, praticamente fui forçado pelo povo.
O povo confiava em mim, então eu fui tendo contato com as injustiças bárbaras, arbítrios de autoridades e acabei me envolvendo. E a problemática era terra para o Brasil inteiro e nesta fase acabei sendo eleito presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e entrando para a lista dos bispos vermelhos.

Ameaças de morte
Por meio de ligações telefônicas anônimas. Na verdade, as ameaças eram para mim, para Dom Antonio Possamai (ex-bispo de Ji-Paraná) e Dom Geraldo Verdier (Guajará Mirim). Em 2003 nós assinamos uma nota criticando as ações do crime organizado em Rondônia e vendo omissão, prevaricação e conivência dos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e do Ministério Público. A nota foi motivada pela absolvição, pela Justiça, de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, acusado de diversas irregularidades.
Havia desvios de verbas da educação para outros setores; o Poder Judiciário só julgava em desfavor de milhares de famílias sem-terra; houve a chamada chacina do Urso Branco em 2003, com 14 mortos, que se repetiu em 2004 com 16 mortos e tudo diante da omissão das autoridades.
Nós apenas agimos em nome da ética para incentivar o debate público para que a população pudesse avaliar o comportamento das instituições que estavam comprometendo a convivência democrática.

Os conflitos em terra
Recentemente, um assentamento de sem-terra foi invadido por pistoleiros e um líder comunitário, membro de uma de nossas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), foi assassinado. Aqui é uma região dominada pela pistolagem que impõe todas as formas de terror e violência sobre as famílias.
Os pequenos vivem em contínua insegurança e os grileiros e grandes latifundiários, impunes e intocáveis. São comuns os atentados contra a vida e os direitos humanos, como: ameaças e perseguições, despejos violentos marcados pela brutalidade de jagunços contratados para ofender a dignidade humana em suas necessidades fundamentais como a moradia, a saúde e a educação.

Causa dos conflitos
A lentidão do processo de Reforma Agrária, a ganância do agronegócio, os grandes esquemas de grilagem de terras públicas, a perversa estrutura fundiária do Estado, o latifúndio, o desmatamento predatório e irracional, o roubo de madeira de reservas florestais, a cultura extensiva do boi, a cultura da soja e agora da cana-de-açúcar.
A violência é um ingrediente num modelo de desenvolvimento baseado em latifúndios empresariais e na monocultura de exportação. Além disso, vivemos sob uma hegemonia política inaceitável que detém grande parte do poder do Estado, seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário.

Esquadrão da morte
A violência no Acre e a impunidade dos assassinos e seus mandantes era um mal que parecia imbatível no Acre desde que eu cheguei ao Estado. Mas nos últimos anos, a partir de 1984, parece que começou a se deteriorar ainda mais. Eu era procurado constantemente por pessoas aflitas que me relatavam fatos absurdos, sofrimento e medo. Escutei muitas confidências.
Paralelamente a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Diocese de Rio Branco vinha coletando notícias que saíam nos jornais. Eram lacônicas, escritas com medo, mas revelavam nas entrelinhas. Assim, juntamos um dossiê e mandamos para o Ministério da Justiça e para a Procuradoria da Justiça.

A gota d’água
Foi quando mataram um irmão de Hildebrando e ele iniciou uma caça aos assassinos com seu motosserra. Quando o corpo do baiano apareceu serrado em frente ao prédio da TV Gazeta todas as autoridades ligadas à Segurança Pública decidiram fazer uma reunião.
Estavam lá o comandante da PM, o secretário de Segurança, o corregedor de Justiça, o superintendente da Polícia Federal e a reunião foi invadida por Hildebrando que ameaçou a todos aqueles que tentassem impedi-lo de caçar o assassino de seu irmão.
Eles nada fizeram. Então eu procurei o Exército, que também lavou as mãos. Todos admitiam estar à mercê dos criminosos.

Desmantelamento
Foi com um ato de coragem do desembargador Gersino Silva, que denunciou o esquadrão da morte e o possível envolvimento de Hildebrando, que passou a ser caçado e ameaçado de morte e teve de ficar 24 horas por dia sob proteção. Mas aí tudo começou a ser clareado, pois o Procurador da República, Luis Francisco, passou a cobrar das autoridades, já que Hildebrando era deputado federal e vivia em Brasília.
Foi aí que eu comecei a falar. Em todas as vezes que fui convocado para prestar depoimento eu confirmei ter informações a respeito da ação do esquadrão da morte e que não tinha dúvidas de que o responsável era o senhor Hildebrando Pascoal.

Os acidentes
Até hoje não há indícios de que tenha ocorrido um atentado, embora pessoas próximas a mim vejam esta possibilidade. No primeiro acidente eu viajava em um Gol que bateu em outro carro e virou perto de Ouro Preto d’Oeste. Eu passei 15 dias inconsciente e outros 15 dias de barriga pra cima. Isto foi em 2001; três anos depois veio outro acidente, agora aqui perto da capital. Chovia muito e a pista estava escorregadia, fazendo o veículo derrapar e capotar.

A Igreja
Eu creio que a principal tarefa da Igreja é formar os seus cristãos. E nessa formação estão a palavra de Deus, a oração, os sacramentos, a solidariedade e a luta pela justiça.
A Igreja do Acre foi praticamente a mãe de todos os movimentos populares desse Estado. Eu diria que só é cristão de verdade aquele que se empenha na luta pela justiça para os seus irmãos, pelo bem-estar do povo. Mas nós nunca devemos misturar as coisas, a comunidade com os partidos políticos.

1 Comments:

Blogger Flávio Maia said...

Parabéns pelo excelente artigo sobre "Dom Moacir", homem de grande coração para com os povos da Amazônia.
Flávio Maia

6:46 AM  

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